Adorno, uma aproximação à sua compreensão (tradução de artigo de Olga Besio)

Segue tradução do texto "Adorno una aproximación a su comprensión", de Olga Besio, escrito em 2007. Tradução por Roberta Barreto. Algumas palavras típicas do tango mantive em espanhol, deixando-as em itálico, para conservar a semântica original delas e algumas traduzi em parênteses.



"Adorno, uma aproximação à sua compreensão

 Para falar de adorno - e como apoio a tudo que possa vir depois - devemos, em primeiro lugar, remexer nas origens da essência e da existência do tango e da dança. É necessário deixar bem claro que a palavra "dança" não tem somente a acepção que conota técnica. Muito pelo contrário, seu sentido mais amplo e genérico se refere a toda forma de dança (no sentido particular) e de baile. E alude ao mais natural, primitivo, remoto, visceral e até animal, do ser humano. E, nesse sentido, é muito anterior, tanto histórica, cronológica, como ontologicamente, a toda concepção técnica.

Se entendemos a dança como um feito profundamente natural, que nasce com o ser humano - e falamos assim da dança popular, da qual o tango bailado é talvez nosso exemplo mais intrínseco - imediatamente fica descartado todo o supérfluo. 

Então, que é o tango? O que já todos sabemos: um baile a dois, uma profunda comunicação com o outro, e com a música, e..., e... e "descobrimos" assim a ideia de diálogo. O diálogo da pareja (casal) de baile, o diálogo com a música, o diálogo dos pés entre si e com o piso, desenhando os famosos ochos e mil coisas mais - e, se calhar, o diálogo dos pés e das pernas com o ar, desenhando com precisão boleos de formas claramente definidas, criadas e recriadas a cada vez. 

Mas, em que consiste o "adorno", também chamado às vezes - posteriormente - "embelezamento", "expressividade"...? O adorno consiste, precisamente, em expressar a essência do tango. De nada serve fazer adornos mediante procedimentos meramente técnicos, se não se compreende realmente "de que se trata". As pernas da bailarina (e ATENÇÃO: também as do bailarino) equivalem a uma pareja (casal) de tango. Abraçam-se, juntam-se, dialogam, acariciam-se... tecnicamente, isso se consegue a partir de um jogo de rotações das articulações. Mas esse jogo de rotações não deve ser tomado como algo friamente técnico, senão como algo absolutamente natural e lógico, tão natural e tão lógico como qualquer linguagem. 

As pernas "expressam", "são expressivas", quando têm uma linguagem; não quando meramente se movem. Assim, acabamos de derrubar vários mitos:
  • Um é que os adornos são "movimentos que tem que aprender ou copiar". De nenhuma maneira. A aprendizagem técnica é importantíssima, mas não basta. Há maravilhosos bailarinos e bailarinas que fazem do adorno uma verdadeira emoção, mas também vemos, lamentavelmente, a mera repetição de movimentos ou cópias de tal ou qual bailarino/a, sem haver entendido realmente sua essência; nesses casos, geralmente o bailarino ou a bailarina "original" é excelente, e as cópias resultam frívolas, e às vezes até desagradáveis e inclusive grotescas.
  • Outro é que o adorno é "questão de mulheres". De nenhuma maneira. Adorno é tudo que faz o homem e/ou a mulher sem interferir na marcação, nem no passo, figura, sequência, etc., incluindo-o com exatidão na música e sem produzir nenhum tipo de vibração nem empurrão. Para isso, é absolutamente necessário saber levar e seguir, e ter muito bom ouvido musical (sempre digo aos meus alunos(as) que o companheiro(a) tem que se dar conta de que sua pareja faz adornos quando os vê em um vídeo. Isso aconteceu com um famoso bailarino, que um dia se viu filmado e descobriu o que fazia sua companheira e por que havia tão bons comentários sobre ela).
  • Outro: o de que "para que a mulher adorne, o homem tem que lhe dar tempo". Isso vale quando se trata de uma coreografia, que pode ser elaborada de comum acordo ou de forma unilateral, ou mesmo por um terceiro. Mas no tango improvisado, está na inteligência, na habilidade, e na "tangueiridade" da mulher, o saber decidir se corresponde, e em caso afirmativo, quando, como e que adorno ou tipo de adorno é mais adequado segundo as circunstâncias. É claro que, se a bailarina tem pouca experiência, não é aconselhável que tente fazê-lo na milonga; para isso há as aulas e práticas.
  • Um mais: falando de ouvido e musicalidade, alguns bailarinos(as) (ou aprendizes) consideram que é suficiente "escutar o ritmo". Outros, mais avançados ou refinados, falam de "bailar a frase". Tem-se de esclarecer que isso não basta; é necessário compreender também a melodia e a peculiar expressividade de cada peça musical, cada arranjo, cada versão... E nesse sentido, a musicalidade que necessitam o bailarino e a bailarina vai muito além do reconhecimento do "ritmo", do "compasso", do "tempo forte", do "fraco", do "contratempo" e todas essas coisas de que habitualmente se fala (às vezes inclusive as misturando e confundindo). A musicalidade que aqui se requer é uma verdadeira linguagem, que possa traduzir, sobreinventar e voltar a criar uma e mil vezes o sentimento, a estrutura compositiva, a essência dessa obra em particular que esse homem e essa mulher têm a ventura de poder bailar aqui e agora.
Por último, é necessário mencionar que o adorno não se limita ao movimento, e tampouco se limita aos pés e às pernas - ainda que esses sejam talvez os mais visíveis - senão que é todo o corpo, é uma atitude, uma quietude, um fechar os olhos, uma pausa, uma sucessão de mudanças de velocidades e mil coisas mais que podem e muitas vezes necessitam ser trabalhadas tecnicamente, metodologicamente, mas que em definitivo mostram o amor e a paixão de bailar o tango como cada uma, cada um e cada pareja é capaz de senti-lo. "

Clique aqui para ler no idioma original

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Para finalizar, deliciem-se com a grande sábia e maestra Olga Besio bailando: 





Comentários

  1. Texto perfeito. Parabéns pelo blog. ;)

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  2. Adorei o texto Roberta, não conhecia.
    Parabéns pelo blog e obrigada por compartilhar. Bjins! ^^

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