Lição número 1 de tango, por Olga Besio


Olga Besio: lição de tango
Tradução: Roberta Barreto





TANGO - lição número 1
Por onde começo?
O que a toda pessoa que queira bailar tango deveria ficar bem claro desde o princípio (e a toda pessoa que queira ensinar também)

Muitas vezes me indagaram como se deveria ensinar a bailar tango aos principiantes. E é provável que cada professor se faça essa pergunta uma e mil vezes, de acordo com quem sejam os alunos com quem deva iniciar esse caminho a cada oportunidade. E é também a misteriosa incógnita daqueles que um dia decidem aproximar-se pela primeira vez desse baile tão complexo em aparência, mas cujos fundamentos são tão simples quanto, ao mesmo tempo, carregados de significado.

A resposta a essa pergunta aponta, segundo meu modo de ver, não somente a aspectos metodológicos e, menos ainda, aos “conteúdos” meramente formais, tais como passos matemáticos ou frias maneiras de caminhar ou girar.


Na verdade, o que é essencialmente, profundamente, o tango bailado? Com certeza NÃO é uma sucessão de passos, figuras, estruturas, movimentos. Algo muito mais profundo sustenta tudo isso. E esse algo mais profundo não é precisamente “técnico”, senão que se trata de um fator muito anterior, primário e fundamental.


Em uma enunciação simples, sem pretender determinar uma ordem cronológica nem hierárquica, poderíamos dizer que se trata de uma relação natural, humana, intuitiva, sensorial, com um “outro” humano e com um “outro” sonoro. Então talvez poderíamos dizer também que, em primeiro lugar, deveríamos elaborar, construir ou também desvendar a relação de unidade-dualidade com a outra pessoa – o companheiro ou companheira de baile – alguém com quem podemos fazer algo tão simples como nos movermos juntos (que muitas vezes resulta tão difícil) ou movermos juntos um objeto. 
(Tudo isso, sem distinção ainda dos papeis de levar e seguir, que deveriam trabalhar-se ambos simultaneamente para as duas pessoas, a fim de chegar a uma compreensão plena de ambos aspectos – que não são opostos, senão absolutamente complementares, dado que se necessitam mutuamente.)

Como alcançá-lo? Permitindo que meu corpo dialogue com o corpo da outra pessoa, que lhe “fale de frente”, que o “escute”, que flua uma comunicação tão simples e natural como a que flui na vida cotidiana quando faço algo com alguém ou quando falo com alguém, colocando-me de frente a essa pessoa, com todo meu ser adiante, e não somente dois corpos... senão duas pessoas, com alma, sentimentos, emoções... e a humana, divina e animal capacidade de ser-com-outro.

Ah, esquecia-me: e o abraço? Sim, claro: o abraço em tal posição, a mão a uma determinada altura, o ângulo... que complicado... talvez possa medi-lo com régua, esquadro e compasso... Humm... E se simplesmente abraço a outra pessoa e faço que me abrace? Um abraço verdadeiro, humano, cálido, firme e doce ao mesmo tempo... Depois posso lhe tomar a mão e permitir que tome a minha e... talvez se o meço agora, encontre um “correto” abraço de tango!! Amigos, o abraço de tango é simplesmente isto: um abraço! E não uma mera “posição de braços”.

Um bom abraço é algo natural, humano, cômodo e agradável para as duas pessoas, e permite abordar outros aspectos do nosso tema: o movimento, o brincar com o peso da outra pessoa e com o próprio, o fazer algo juntos como... bailar. Como já disse em algum outro artigo, bailar é um feito natural que nasce com o ser humano. Tudo que aqui se considera também o é. E tudo que costumamos considerar “tecnicamente necessário e/ou correto” não é mais nem menos que uma consequência de algo que, em sua origem, é absolutamente natural. Bailar é um feito natural. Então, evitemos estereótipos...


Uh, creio que ainda falta algo. O diálogo é, por definição, “de dois”. Mas no caso do tango (talvez no caso de toda dança que se baile a dois?), o diálogo que se me apresenta é “de três”. Claro, “o terceiro” é a MÚSICA. E com esse maravilhoso, surpreendente, cativante “TRIÁLOGO”, é donde vemos nascer o baile tangueiro e com ele, o caminhar, a improvisação e a criatividade. Depois virão os passos, as figuras, os estilos e toda a infinita variedade que o tango, ou a milonga, ou o vals, podem brindar-nos.
Portanto, creio que isto é o que se deveria ensinar e aprender na primeira lição:
·     O diálogo com a outra pessoa. A absoluta segurança de que tudo que ocorra no baile é obra e responsabilidade das duas pessoas, de modo que, para todos os efeitos, o casal de baile se constrói entre os dois (cada um desde seu papel), elaborando cada um o que lhe corresponde e colaborando em tudo com seu companheiro ou companheira. Dentro desse diálogo, como um dos seus aspectos, está incluso o abraço.
·       O diálogo com a música. Dentro desse diálogo, como uma das suas possibilidades, está incluso o caminhar.
·       Em definitivo, o “triálogo”, a profunda comunicação entre esses três elementos fundamentais (as duas pessoas e a música), com a incrível significância, profundidade e complexidade de detalhes que isso comporta. Dentro desse “triálogo”, está incluso o caminhar abraçados e segundo a música.
·     E a compreensão indubitável de que todos esses aspectos constituem uma unidade que aninha precisamente, e como um feito fundamental, a essência do tango.

Essa seria, segundo meu critério, a primeira lição. Mas... quanto deveria durar? Uma hora e meia? Duas horas? Um mês? Talvez a vida inteira.

Comentários

  1. Aprendizados de uma vida e para uma vida inteira. Obrigada Roberta pela sua linda contribuição.

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    1. Obrigada você, Suely! Ensinamentos de uma sábia como a Olga precisam ser compartilhados. :)

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