Tango, como dançá-lo com poucas ou nenhuma figura decorada

Texto: Roberta Barreto


A ideia deste texto nasceu de um meme. Numa foto, um amigo bailava e olhava para cima, expressão que pode significar uma busca na memória. Memifiquei aquele momento e lhe enviei, disse que ele estava pensando “já fiz todos meus passos, e agora?”. Que líder nunca passou por isso, quem nunca?

Certa vez, um viejo milonguero disse: “con dos o trés pasitos ya bailás, pibe” (tradução livre: “com dois ou três passinhos, você já baila, garoto”).  Tango, embora possa ser rebuscado, intenso, dramático, tem esse quê de alma minimalista. Não é preciso saber um mundo de sequências feitas para bailá-lo bem, para proporcionar uma tanda agradável ao outro. E como se faz isso sem se tornar entediante? Como, mesmo tendo um pequeno repertório de passos, o líder pode ser prazerosamente imprevisível e novo a cada música?

Comecemos a resposta pelo abraço, por mais lugar comum que seja esse tema, pois tanto ainda carecemos dele. Quantas vezes já não pareceu a você, dama, que algum iniciante tinha um melhor abraço que determinado cavalheiro dito avançado? O que aconteceu? Com o decorrer do estudo de tango, o líder passou a se preocupar tanto com os outros elementos (postura, técnica, figuras...), que deixou o abraço de lado? Está tão tenso, focado nesses outros elementos, que não pode relaxar e sentir, de fato, você? Ou foi a racionalização do abraço que tirou seu quê de humano, de natural?

De nada vale uma elaborada sequência de passos sem um abraço confortável, relaxado, estável e que realmente esteja servindo de conexão entre os corpos. Líder, com cada dama que você dançar (escreverei dama aqui para simbolizar o rol de quem segue, mas claramente pode ser um cavalheiro a ser conduzido), adapte seu abraço a ela, regule a altura dos braços o quanto for necessário (entre outras adaptações) e nunca tenha uma postura rígida x que você usa com todas. Repetindo: para cada dama, você precisa adaptar-se. Portanto, não há um só abraço, aprenda a ter quantos abraços forem necessários. Há muito a ser dito sobre abraço, mas prossigamos para os seguintes tópicos.

O mundo tangueiro está cheio de festivais, workshops, aulas, etc., em que muitas vezes são ensinadas novas sequências. Muito cuidado com sequências feitas. É importante sempre buscar aprender coisas novas (muitas vezes, em se tratando de tango, são coisas velhas, porém que não sabíamos), mas como estamos lidando com isso? De nada vale só treinar a sequência transmitida, é preciso desconstruí-la, reinventá-la, adaptá-la, saber sair dela de qualquer ponto, entrar e sair de maneiras diferentes, saber fazê-la quiçá para o outro lado, ao contrário, voltando, introduzindo novos elementos, etc. – até que a sequência deixe de ser algo fixo, para ser um caleidoscópio de novas formas. Desse modo, uma única sequência aprendida pode trazer uma miríade de outras possibilidades, desde que você tenha paciência e ousadia para explorá-la.

Além da desconstrução do decorado, é preciso internalizar os movimentos, torná-los seus – verdadeiros, e não robóticos. Como muitos bons professores de tango costumam dizer, "Hay que poner onda" - difícil traduzir onda para português, mas essa frase seria algo como "você tem que colocar manha", sua manha, sua cadência, seu modo único de fazer algo, aquele não sei quê a mais que deixa uma pareja brilhando, mesmo ao fazer algo que todo mundo faz. Você não tem que executar, na milonga, a sequência da aula ipsis litteris. Faça aquilo que você realmente está sentindo do fundo da sua alma. Uma sequência pode ser uma forma pedagógica de transmitir alguns conceitos; no entanto, não deve tornar-se uma prisão.

Hugo Mastrolorenzo, campeão mundial de tango escenario em 2016 e que, antes disso, já tinha uma longa trajetória no tango, em seu livro “Tango-danza, en busca del método que nunca fue”, a respeito dos problemas gerados por se ensinar em sequência de passos, escreve: esto generó con los años, lo que bien exponían algunos milongueros:  “bailan todos iguales”.  Referiéndose a que realizan todos las mismas secuencias y que hilan los passos desde las mismas posiciones, realizando así, una improvisación sólo en las coaliciones entre secuencia y secuencia, creando, por sobre todo, uma falta de identidade en esta danza tan personal”. Tradução livre: “isso gerou, com os anos, o que bem expunham alguns milongueros: “bailam todos iguais”, referindo-se a que realizam todos as mesmas sequências e que ligam os passos desde as mesmas posições, realizando assim uma improvisação somente nas uniões entre sequência e sequência, criando, acima de tudo, uma falta de identidade nesta dança tão pessoal”.

Ainda com as palavras de Mastrolorenzo: “el tango es uma danza de improvisación (...). Si uma pareja de baile, al realizar el primer movimento sabe cuales son los siete passos siguientes ¿es improvisación? Lógicamente no” (tradução livre: “o tango é uma dança de improvisação (...). Se um par de baile, ao realizar o primeiro movimento, sabe quais são os sete passos seguintes, é improvisação? Logicamente não”. Enfatizo que o foco deste texto é o tango como baile social, não dissertarei sobre coreografias.

Imagine um bebê que sabe poucas palavras e que, a despeito disso, tem ferramentas suficientes para provocar todo tipo de emoções nos pais. Um sorriso, um choro, um olhar. Não é preciso muito para emocionar – aliás, colocar “demais” pode ser um risco a se perder em malabarismos que podem transmitir meramente uma ideia superficial, um “olha que difícil que sei fazer”, e não aquela empatia mágica que emociona um público ou que faz com que quem esteja dançando com você realmente relaxe e se entregue à sua dança.

Ok, está lá o líder na pista, o tango toca, a ronda se move, e agora? Não se pressione a ter que fazer sempre alguma coisa. Lembre-se de que, se não for uma pausa, você pode recorrer à caminhada. Não é um caminhar mecânico enquanto você pensa qual a próxima sequência. Não é caminhar só porque os grandes maestros lhe disseram que é importante caminhar. É caminhar sentindo a música, suas várias texturas, os distintos sentimentos que ela pode provocar em você. Da percepção dos diferentes momentos da música, e isso não apenas de uma maneira racionalizada, mas também instintiva e sentimental, podem surgir diferentes caminhadas: lenta, em legato, felina, feroz, em staccato, suave, em diferentes dinâmicas, a um tempo, a dois, três, em contratempo e assim por diante. Aproveite as ferramentas simples, deixe que a música guie a sua criatividade.

Ao bailarmos tango, há um diálogo entre os corpos. Nessa conversa, às vezes o líder tem “ganchos de linguagem”, passinhos que ele costuma fazer de forma recorrente, mecânica, sem ter muita relação com a música. A dama que já bailou algumas vezes com esse líder sabe que ele sempre faz isso e já fica entediada quando ele começa a fazer aquela dada sequência. Cada movimento tem que ter relação com a música, tem que ter um sentido. Se você coloca a dama perpendicular a você sempre que não sabe o que fazer (por exemplo), está na hora de se livrar dessa muleta. Um abraço, uma pausa e uma caminhada são muito mais agradáveis que um ocho cortado do nada só para se fazer alguma coisa.

Que fique claro que este texto não é um convite à mediocridade. Há momentos da música em que podem ser necessários movimentos mais rebuscados (a depender da sua interpretação artística), entretanto é preciso saber escolher bem qual parte da música e como fazê-los.


Em suma, respondendo à pergunta do título, para dançar tango com poucas ou nenhuma figura decorada, explorem o conforto de um bom abraço, musicalidade, caminhada; desconstruam sequências; fiquem atentos se cada coisa que você faz tem um sentido de ser (está na música? é o que realmente quero expressar?); não atropelem as damas (não é por ser “o líder” que você vai deixar de “escutar” com seu corpo o que a dama está fazendo a cada momento, se precisa de mais tempo para fazer um adorno, se precisa que você dissocie mais para conduzi-la, se ainda está terminando um boleo, se está sugerindo algum movimento, etc.). Aprendam “as palavras” (estudem o que faz de uma sacada um sacada, o que é preciso para acontecer um gancho e por aí vai), criem suas próprias frases e assim você poderá fazer de cada música uma grata surpresa para você e para o outro. 

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