Musicalidade: descrição ou empatia? (tradução de texto de Trud Antzée)

Musicalidade: descrição ou empatia?

Tradução: Roberta Barreto
Notas da tradutora em azul.

 "Isto é Mickey Mousing”* (leia a origem do termo no final do texto).
Eu sempre fui provocado por essa gíria de tango. “Mickey Mousing” foi inventado para significar imitar a música enquanto se dança, mas de uma maneira superficial e automática. Mas eu nunca entendi como dançar a música poderia ser um problema. Para mim, essa tem sido, mais ou menos desde começo, a única forma de verdadeiramente estar junto na dança: dá significado ao que o líder faz, e é uma ótima ferramenta para quem segue influenciar e colorir o baile. Sempre acreditei que um bom dançarino é aquele que conhece a música.
Mas então eu tive uma tanda estranhamente esclarecedora. Foi com um líder que obviamente conhecia a música muito bem – o fraseado estava certo, cada pausa “importante” estava ali. Tudo de acordo com as regras. A tanda tinha tudo que alguém esperaria aprender em aulas de musicalidade, enquanto a dança parecia estranhamente vazia. Combinava com a música, mas era como se tudo estivesse pré-programado. Eu poderia ter dançado com um robô.
Então eu comecei a questionar meu próprio baile. Que sentimentos eu transmito? Estou apenas descrevendo a música através da minha dança? Quero mostrar que conheço a música ou quero mostrar como a música me faz sentir?
Vamos olhar para um exemplo: um tango com algumas boas partes em staccato. Nós queremos expressar esse staccato. Isso é algo técnico. Além do mais, nós devemos escutar, nesse tango em particular, que esse staccato tem uma qualidade luminosa, a qual pode ser interpretada como “feliz”. Tentamos colocar isso na dança, o que também é algo técnico. Você pode ir a uma aula de musicalidade e aprender como dançar um staccato e a qualidade feliz e repeti-lo em outras músicas. No entanto, acredito que é perfeitamente possível dançar um sentimento feliz sem realmente estar feliz. Opostamente, uma música pode fazer você se sentir feliz mesmo que você nunca tenha assistido a uma aula de musicalidade na sua vida, porque isso é algo diferente: a habilidade de ficar emocionalmente envolvido em algo fora de você. É um tipo de “empatia musical”. Creio que a empatia musical é o núcleo. É o que nos faz dançarinos realmente musicais: a habilidade de interpretar emoções musicais como emoções humanas.

Não se preocupe, no entanto! Todas as aulas de musicalidade que você tomou, todas as horas que você passou vendo vídeos de Noelia e Carlitos para ganhar inspiração musical não foram desperdiçadas. Além da empatia musical, precisamos de habilidades técnicas e conhecimento musical. Eles são ferramentas que usamos para integrar nossas emoções na dança.


Então como fazer? Para mim, foi suficiente para reconhecer que eu estava deixando passar algo. Eu queria ser mais emocional na minha dança, então eu decidi que eu me permitiria ser algo mais que uma “descrição musical”. É possível que a mudança não seja notada, como em toda comunicação: eu posso sentir algo, mas isso em si não significa que estou comunicando para meu parceiro. E a comunicação depende também de qual líder está no fim da linha. Eu me sinto diferente, enfim. Talvez seja suficiente?

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Entenda o termo Mickey Mousing:
(tradução de trecho de https://en.wikipedia.org/wiki/Mickey_Mousing )

Em animação e filme, Mickey Mousing é uma técnica de cinema que sincroniza o acompanhamento musical com as ações na tela. "Combinar movimento com música" ou "o exato segmento da música análogo à imagem". O termo vem de filmes do início e do meio da carreira de Walt Disney, em que a música quase completamente trabalha para imitar os movimentos animados dos personagens . Mickey Mousing pode usar a música para reforçar uma ação por mimetizar seu ritmo exatamente. 

Veja exemplo da técnica Mickey Mousing usada em alguns filmes e animações:




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