Olga Besio: lição de tango
TANGO - lição número 1
Por onde começo?
O que a toda pessoa que queira bailar tango deveria ficar bem
claro desde o princípio (e a toda pessoa que queira ensinar também)
Muitas vezes me indagaram como se deveria ensinar a bailar tango aos principiantes. E é provável que cada professor se faça essa pergunta uma e mil vezes, de acordo com quem sejam os alunos com quem deva iniciar esse caminho a cada oportunidade. E é também a misteriosa incógnita daqueles que um dia decidem aproximar-se pela primeira vez desse baile tão complexo em aparência, mas cujos fundamentos são tão simples quanto, ao mesmo tempo, carregados de significado.
A resposta a essa pergunta aponta, segundo meu modo de ver, não somente a
aspectos metodológicos e, menos ainda, aos “conteúdos” meramente formais, tais
como passos matemáticos ou frias maneiras de caminhar ou girar.
Na verdade, o que é essencialmente, profundamente, o tango bailado? Com certeza
NÃO é uma sucessão de passos, figuras, estruturas, movimentos. Algo muito mais
profundo sustenta tudo isso. E esse algo mais profundo não é precisamente “técnico”,
senão que se trata de um fator muito anterior, primário e fundamental.
Em uma enunciação simples, sem pretender determinar uma ordem cronológica nem hierárquica, poderíamos dizer que se trata de uma relação natural, humana, intuitiva, sensorial, com um “outro” humano e com um “outro” sonoro. Então talvez poderíamos dizer também que, em primeiro lugar, deveríamos elaborar, construir ou também desvendar a relação de unidade-dualidade com a outra pessoa – o companheiro ou companheira de baile – alguém com quem podemos fazer algo tão simples como nos movermos juntos (que muitas vezes resulta tão difícil) ou movermos juntos um objeto.
(Tudo isso, sem distinção ainda dos papeis
de levar e seguir, que deveriam trabalhar-se ambos simultaneamente para as duas
pessoas, a fim de chegar a uma compreensão plena de ambos aspectos – que não
são opostos, senão absolutamente complementares, dado que se necessitam
mutuamente.)
Como alcançá-lo? Permitindo que meu corpo dialogue com o corpo
da outra pessoa, que lhe “fale de frente”, que o “escute”, que flua uma
comunicação tão simples e natural como a que flui na vida cotidiana quando faço
algo com alguém ou quando falo com alguém, colocando-me de frente a essa
pessoa, com todo meu ser adiante, e não somente dois corpos... senão duas
pessoas, com alma, sentimentos, emoções... e a humana, divina e animal
capacidade de ser-com-outro.
Ah, esquecia-me: e o abraço? Sim, claro: o abraço em tal
posição, a mão a uma determinada altura, o ângulo... que complicado... talvez
possa medi-lo com régua, esquadro e compasso... Humm... E se simplesmente
abraço a outra pessoa e faço que me abrace? Um abraço verdadeiro, humano,
cálido, firme e doce ao mesmo tempo... Depois posso lhe tomar a mão e permitir
que tome a minha e... talvez se o meço agora, encontre um “correto” abraço de
tango!! Amigos, o abraço de tango é simplesmente isto: um abraço! E não uma
mera “posição de braços”.
Um bom abraço é algo natural, humano, cômodo e agradável para as duas pessoas, e permite abordar outros aspectos do nosso tema: o movimento, o
brincar com o peso da outra pessoa e com o próprio, o fazer algo juntos como...
bailar. Como já disse em algum outro artigo, bailar é um feito natural que
nasce com o ser humano. Tudo que aqui se considera também o é. E tudo que
costumamos considerar “tecnicamente necessário e/ou correto” não é mais nem
menos que uma consequência de algo que, em sua origem, é absolutamente natural.
Bailar é um feito natural. Então, evitemos estereótipos...
Uh, creio que ainda falta algo. O diálogo é, por definição, “de
dois”. Mas no caso do tango (talvez no caso de toda dança que se baile a
dois?), o diálogo que se me apresenta é “de três”. Claro, “o terceiro” é a
MÚSICA. E com esse maravilhoso, surpreendente, cativante “TRIÁLOGO”, é donde
vemos nascer o baile tangueiro e com ele, o caminhar, a improvisação e a
criatividade. Depois virão os passos, as figuras, os estilos e toda a infinita
variedade que o tango, ou a milonga, ou o vals, podem brindar-nos.
Portanto, creio que isto é o que se deveria ensinar e aprender
na primeira lição:
· O diálogo com a outra pessoa. A absoluta segurança de que tudo
que ocorra no baile é obra e responsabilidade das duas pessoas, de modo que, para todos os efeitos, o casal de baile se constrói entre os dois (cada um desde seu
papel), elaborando cada um o que lhe corresponde e colaborando em tudo com seu
companheiro ou companheira. Dentro desse diálogo, como um dos seus aspectos,
está incluso o abraço.
· O diálogo com a música. Dentro desse diálogo, como uma das suas
possibilidades, está incluso o caminhar.
· Em definitivo, o “triálogo”, a profunda comunicação entre esses
três elementos fundamentais (as duas pessoas e a música), com a incrível
significância, profundidade e complexidade de detalhes que isso comporta.
Dentro desse “triálogo”, está incluso o caminhar abraçados e segundo a
música.
· E a compreensão indubitável de que todos esses aspectos
constituem uma unidade que aninha precisamente, e como um feito fundamental, a
essência do tango.
Essa seria, segundo meu critério, a primeira lição. Mas...
quanto deveria durar? Uma hora e meia? Duas horas? Um mês? Talvez a vida
inteira.

Aprendizados de uma vida e para uma vida inteira. Obrigada Roberta pela sua linda contribuição.
ResponderExcluirObrigada você, Suely! Ensinamentos de uma sábia como a Olga precisam ser compartilhados. :)
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