Tempos atrás, quando eu estava começando o processo de bailar tango, escrevi este texto que abaixo mostro para vocês. Embora muitos dos artigos publicados aqui no blog tenham sido sobre técnica, hoje vou abrir esta porta mais abstrata. Às vezes, o terreno da poesia, todo éter e sentimento, pode alcançar, melhor do que a prosa racional, o que chamamos de tango. Ainda que o título seja "Así se baila el tango", de maneira alguma quero com isso dizer com qual maneira se deva dançar um tango. Escrevi-o escutando um e meio que estava dançando tango com palavras ao redigi-lo. Sem mais delongas...
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| Fotografia: Roberta Barreto. Modelos: Renata Policarpo e Lorran Monteiro. |
Así se baila el tango
Autora: Roberta Barreto
A ponta do dedo risca o chão. Arrastar-se é estar na guerra. Vai, deixa-se ir. Conectam-se. Enroscam-se. Corpo que avança, corpo que resiste. Não é tristeza, não é temor. Fere, leva, toca, golpeia. Sente as ruas molhadas, a luz dos lampiões nas poças de lama, os bêbados jogados, o cinismo, o ciúme, o fingimento, a agonia, a insensatez, e anda. Marcha com batalhões, olhares de corpos que talvez nunca se toquem, remorso, ilusões, silêncio, alma, paixão, loucura, vertigem. Desequilíbrio equilibrado. Desamparo, amparo. Cai, flutua. Passos precisos, circulares, triangulares, vermelhos, negros. Não são masculino e feminino. E são. Náusea. Completam-se, faltam-se. Chão, céu, inferno. Um e qualquer um. Outro. Domínio, submissão. Miram-se, desviam-se. Leves, duros, voam, aterrissam.Lento, estar no agora em que o tempo só existe em compassos. Violino, bandoneón, piano, respiração, batidas no peito. Beber a lua, enrolar-se com a noite. Silenciosos, felinos que observam suas caças. O milésimo de segundo antes do ataque. Olhos insinuam, pernas fingem. Cúmplices. Das mãos aos pés. Dos pés ao abraço. Estar inteiro, estar pela metade. Ser.
Rápido. Movimentos bruscos, violentos, desesperados. Apazigua a sede de anos. Rápido para a dor ser apenas prazerosa. Rápido para não haver palavras, cessar o pensamento. Rápido para se pensar séculos. Rápido para não se amar menos. Rápido para não haver meas culpas. Rápido para não se voltar atrás. Rápido como se torna furtivo o olhar. Rápido para não se pensar no tempo. Terrosos, úmidos, impossível. Rápido.

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