Texto original de Mariano Chicho Frúmboli.
Tradução: Roberta Barreto.
Que lo parió*...
Quando foi que aconteceu? Quando comecei, não entendia... via as pessoas
bailarem em “Almagro”, em “Glorias argentinas”, em “Regin”, “Sin rumbo”... e
não podia fazer relação entre o que via e o que me queriam ensinar... e estou
falando especificamente da parte interpretativa e musical.
Talvez porque, com meus conhecimentos como baterista, em que a batida é
o mais importante, me tranquei nesse tempo forte que sentia no salão e nas
aulas que tomava. Mas sabia que havia algo mais... algo que eu estava deixando de desfrutar...
Nada se compara com bailar a tempo um D´Arienzo, um di Sarli...
D´Agostino... um Tanturi... Mas... e um Pugliese...? Por que não passam
Pugliese nas milongas... ??? Sei, já sei que muitos DJs vão dizer-me que o
passam. Mas a maioria das milongas que vou não. Algo me passava com essas
orquestras que não via... e isso que eu tinha em frente, olhando a toda essa
gente que eu, ignorante, pensava que estavam bailando fora do tempo... Com os
anos entendi que um Pupy, um Tete, um Osvaldo Zotto, Mingo... Pepito, Omar Vega,
Capussi, Julio Balmaceda... gente da galomi** (gente da milonga)... os verdadeiros milongueiros tinham sua própria musicalidade, sua
própria interpretação. Uma maneira
pessoal que os separava do restante.
E era isso justamente o que eu não estava aprendendo, até esse momento.
Essas coisas que se aprendem sem que ninguém te diga.
Essas coisas que fazem a diferença entre um milongueiro e uma pessoa que
somente “baila tango”.
Tarde em entendê-lo, mas pude ver. E somente o vi quando fui a esse
lugar no qual somos sinceros com nós mesmos.
Esse lugar onde não existe a opinião alheia e os pudores, e se sente de
verdade.
Então... passam os anos e vejo as tendências... que também passam. E vejo
algo que se instalou ERRONEAMENTE, e que é... o sentido da musicalidade...
Muita gente que entrou no mundo do tango em qualquer parte do planeta,
há 5... 10 anos... ou ontem, aprendem de professores que ensinam o que “para
eles” significa a musicalidade ou ilustração musical.
E rapazes... NÃO CONFUDAM musicalidade com ritmo!!!! Por
favor!!!!
O ritmo é algo importante sim... ilustrar a música não é bailar, não é
interpretar, ilustrar é mecanizar a coisa... e hoje necessitamos mais
tangueiros, e não máquinas que repetem as mesmas sequências (10 Max) sistematicamente
em Maratonas, Encontros ou Campeonatos.
O dia em
que todos os “bailarinos” de tango do mundo entendam essa GRANDE diferença,
vamos ter mais tangueiros. No dia em que o possam ver e sentir, vai surgir mais
personalidade... e por final, mais estilos, como havia naquela época...
A
interpretação é o último passo na aprendizagem de um bailarino...
A
interpretação pessoal é o primeiro passo na direção de um estilo próprio...
Hoje o
tango se converteu em um clube de amigos onde “se bailo o mesmo que todos...
posso integrar-me”, “ser parte” desse mesmo clube e assim “não me sinto sozinho”.
Ser e estar sozinho é parte desse conjunto de coisas que tem o tango na sua
parte mais melancólica (mas isso é outro tema para se alongar bastante, se
querem).
Na minha época,
quanto mais pessoal fosses, mais te reconheciam, bem ou mal, mas era assim. E
não falo de um reconhecimento como o de hoje, até as “Estrelas” nem o que
muitos buscam como “reconhecimento”, senão um reconhecimento ao que se bailava,
transparente e puro.
O que
aprendi foi outro cantar...
O que
aprendi sem que ninguém me ensinasse foi a ser tangueiro.
Amigos,
gente, “bailarinos de tango”...
Não permaneçam,
não durmam, busquem...
Estão-se
perdendo de algo maravilhoso.
*Que lo parió: por não se abreviar a expressão semelhante em português ("que vá à puta que pariu", não se diz "que pariu" apenas), posso traduzir com o sentido de "que se dane".
** Gente de la galomi: jogo de sílabas com a palavra milonga, mi-lo(n)-ga => galomi
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